Modernices que de nada servem para os idosos

Aliás, confina-os quando a família não tem paciência para aturá-los!

10
Nov 10

mulher_velha.jpgDebruçada na janela, observo o mundo que, há tempos, se constitui no quotidiano de uma rua de periferia.

O cansaço chegou, somado a dificuldades no caminhar, e a visão, turva, me mostra apenas uma sucessão de dias monótonos, vazios. Muitas vezes, me pergunto se vale a pena viver sem motivações, alegrias, esperanças. Nada existe que me prenda a esse mundo. Olho os novelos de lã, que sempre foram fontes de alegria e prazer, e me lembro das colchas, coletes, vestidos e blusas que, carinhosamente, tricotava para minha família. Era meu passatempo preferido, mas agora, com essa insensibilidade nas pontas dos dedos... tento, mas em vão. As agulhas caem, as linhas se embaraçam.

Desisti, também, das revistas, pois meus olhos vêem nelas apenas borrões. Que doença danada! Foi minando meu corpo e, agora, já não tenho sequer como andar, e rastejo.

De tão calada que passo meus dias, sequer consegui, na visita médica mensal, explicar o que sinto de esquisito. As palavras ficaram travadas e o máximo que consegui emitir pareceu um grunhido. Foi quando me dei conta de que já estava excluída da vida.

Lembrei, sorrindo, de uma matéria de revista, que falava sobre certas culturas; países onde as pessoas se preparavam para a morte, se deitando, ou sentando, até que Ela chegasse. Eu me sento todos os dias, horas a fio, esperando-a, e Ela não vem. As forças se extinguem.

Sei que a solidão é algo de que não se corre, principalmente quando as pernas já não servem para nada, e a cabeça sempre se esquece de raciocinar. Vario demais. Chego a ver nos outros o rosto do meu pai, da minha mãe...

 

Não gosto de contar sobre a dor que marcou minha vida. Foi por conta da minha única filha que, duas semanas após meu aniversário de oitenta anos, disse que não podia mais ficar comigo e me trouxe para esse asilo. Não pensei que fosse um adeus, até que os anos passaram. E assim, fiquei só.

Daquele dia em diante, nunca mais senti dor. Dormências, sim. Esquecimentos...

Por anos a fio, vivi entre novelos de lã, tricotando, lendo revistas e vendo a vida passar através da janela.

Agora, cansada, todos os dias me sento, à espera de quem, decerto, não me faltará, e virá, algum dia.

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16/08/2007

Belvedere Bruno

publicado por LauraBM às 23:50
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10
Nov 09

cravo_verm.peq.gifQueres saber minha idade?
Olha dentro dos meus olhos profundamente, docemente!
Verás tudo o que imaginares!..
Não uma alma cansada, não uma mulher madura, não quem perdeu a esperança, não quem a insónia não deixou dormir!

Antes, uma criança que corre pelos prados atrás das borboletas, dos gamos e gazelas, de tudo que lhe dá vida!
Do cheiro do alecrim, das flores esparsas como  um tapete de relva que seus pezinhos palmilham...

Antes, alegria rejuvenescida, vontade de viver, jovem como é!..
Nunca me perguntes minha idade! Não a tenho! Podes me dar a que quiseres. Não me importo não!..
Se esse corpo de hoje está diferente, a alma , essa, nunca mudou e nem mudará!
Não é uma alma atribulada, plena de dor e desamor! É uma alma cheia de encantamentos, para te dar muito amor que só conhecem os que amam, os que ainda correm atrás de seus sonhos, atrás dos beija-flores, do canto das cigarras, do sol que já desponta, e da tarde que se vai.
Tudo isso é a minha idade, junto a todo o amor que sinto por mim e por ti.
Sim, porque preciso me amar também. Dar-me um pouco de calor, para aquecer esse meu abraço que é só teu e meu.
Se quiseres ,ainda, saber a minha idade, olha, dentro dos meus olhos e lá verás a Idade do Amor!..
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Eda Carneiro da Rocha
www.albumpoeticoeda.com.br

publicado por LauraBM às 17:38
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10
Nov 08

velha_gorro.jpgDebruçada na janela, observo o mundo que, há tempos, se constitui  no cotidiano de uma  rua de periferia. O cansaço chegou, somado a dificuldades no caminhar, e a visão, turva, me mostra apenas uma sucessão de dias monótonos, vazios. Muitas vezes, me pergunto se vale a pena viver sem motivações, alegrias, esperanças. Nada existe que me prenda a esse mundo.

Olho os novelos de lã, que sempre foram fontes de alegria e prazer, e me lembro das colchas, coletes, vestidos e blusas que, carinhosamente, tricotava para minha família. Era meu passatempo preferido, mas agora, com essa insensibilidade nas pontas dos dedos... tento, mas em vão. As agulhas caem, as linhas se embaraçam.

Desisti, também, das revistas, pois meus olhos vêem nelas apenas borrões.
Que doença danada! Foi minando meu corpo e, agora, já não tenho sequer como andar, e rastejo.

De tão calada que passo meus dias, sequer consegui, na visita médica mensal, explicar o que sinto de esquisito. As palavras ficaram travadas e o máximo que consegui emitir pareceu um grunhido.

Foi quando me dei conta de que já estava excluída da vida. Lembrei, sorrindo, de uma matéria de revista, que  falava sobre certas culturas; países onde as pessoas se preparavam para a morte, se deitando, ou sentando, até que Ela chegasse. Eu me sento todos os dias, horas a fio, esperando-a, e Ela não vem. As forças se extinguem. Sei que a solidão é algo de que não se corre, rincipalmente quando as pernas já não servem para nada, e a cabeça sempre se esquece de raciocinar. Vario demais. Chego a ver nos outros o rosto do meu pai, da minha mãe...

Não gosto de contar sobre a dor que marcou minha vida. Foi por conta da minha única filha que, duas semanas após meu aniversário de oitenta anos, disse que não podia mais ficar comigo e me trouxe para esse asilo. Não pensei que fosse um adeus, até que os anos  passaram. E assim, fiquei só.

Daquele dia em diante, nunca mais senti dor. Dormências, sim.
Esquecimentos...

Por anos a fio, vivi entre novelos de lã, tricotando, lendo revistas e vendo a vida passar através da janela.

Agora, cansada, todos os dias me sento, à espera de quem, decerto, não me faltará, e virá, algum dia.
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Belvedere  Bruno

publicado por LauraBM às 18:17
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10
Nov 07

homemidoso_sofa.gifInfelizmente a falta de respeito, principalmente para com os mais velhos é um facto. 
É lamentável, mas é um facto.

São filhos que menosprezam os pais porque envelheceram. 
São netos que desprezam ostensivamente os avós, porque envelheceram mais ainda.
E, principalmente, jovens que, por serem jovens se acham no direito de menosprezar os idosos que encontram pela frente, com atitudes debochadas, ridicularizando certas deficiências que esses idosos, por vezes, tem para sua locomoção.

Um facto que me revoltou, foi ver um garoto, de seus 17, 18 anos, tremendamente chateado porque "tinha que acompanhar aquele velho chato (seu avô), pois esse inútil não é capaz nem de andar sozinho". 
Não aguentei tal comentário.  Pedi ao "velho chato" que sentasse um pouquinho num banco do jardim da praia, catei o garoto pelo braço e simplesmente perguntei a ele, quantas vezes é que seu avô o havia pegado pela mão para ensiná-lo a andar quando era pequeno.
Lembrei ao infeliz que se todos o tivessem desprezado "porque ele não era capaz de andar sozinho", possivelmente estaria engatinhando até hoje. 
Quanto ao fato de ter nojo "do velho" porque ele não mais conseguia controlar suas necessidades fisiológicas, procurei lembrá-lo de que, quando bebé, também ele foi trocado um sem número de vezes, possivelmente pelo próprio avô, pois ele não conseguia controlar suas necessidades.  O garoto tentou defender-se dizendo que era diferente, pois ele era criança e precisava ser ajudado. 
Fiz o moleque ver e entender que, muito mais do que uma criança, um velho incapaz merece ser ajudado, e muito, pelo tanto que já fez pela família, pela comunidade, por todos, enfim. 
Acredito que talvez uma pequena luz tenha entrado na cabecinha daquele infeliz, principalmente quando eu o fiz ver que, com sorte, ele também iria chegar nesse ponto de voltar a precisar dos outros até para as menores necessidades e o que ele preferiria encontrar: se quem lhe estendesse a mão para ajudar, ou quem o empurrasse para cair mais depressa. 

Pessoas como esse rapaz precisam entender que até mesmo os velhos que só estão "ocupando espaço", que é como eles gostam de definir, merecem todo o respeito e toda a consideração, mais ainda do que os outros plenamente capazes, pois já viveram e trabalharam muito.  Fizeram sua parte. 

E já que nossas autoridades não são capazes de proporcionar um fim digno para quem tanto já fez, pelo menos aqueles que têm condições de dar um amparo e, principalmente os familiares que tanto já usufruíram seu trabalho, devem se sentir, não na obrigação, mas no dever de fazer alguma coisa por eles.
Hoje, além de defender os direitos de quem já chegou lá, estou trabalhando também em causa própria, pois já estou chegando lá também. 
Espero que filhos, netos e demais, entendam a indirecta...   
Sacaram crianças ?
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10/02/2005
Marcial Salaverry

publicado por LauraBM às 01:04
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10
Nov 06

avo-tricotgato.gifQueridos netos,

A Vó não sabe brincar com vocês, porque só sei brincar de passado e vocês só sabem brincar de futuro. E ainda estarei brincando de recordação quando vocês começarem a brincar de esperança.
Mas antes que eu me torne apenas um retracto na parede, uma referência dos meus entes queridos ou até uma lágrima de minha filha, quero lhes dizer uma coisa que considero muito importante para os seus momentos de dúvida.
Porque eles ocorrerão e todos serão preciosos.

Quero lhes dizer, queridos netos, o que vale a pena.

- Vale a pena crescer e estudar.
- Vale a pena conhecer pessoas, ter namorados e namoradas, sofrer ingratidões, chorar algumas decepções e- apesar de tudo isto (ou por causa de tudo isto)- ir renovando todos os dias sua fé na bondade essencial da criatura humana e o seu deslumbramento diante da vida.
- Vale a pena verificar que não há trabalho que não traga recompensa, que não há livro que não traga ensinamento, que os amigos têm mais para dar que os inimigos para tirar, que, se formos bons observadores, aprenderemos tanto com a obra do sábio quanto a vida do ignorante.
- Vale a pena ver que toda a amargura nos deixa reflexão, toda tristeza nos deixa a experiência e toda alegria nos enche a alma de paz.
- Vale a pena casar e ter filhos. Filhos que nos escravizam com seu amor e nos concedem a felicidade de tê-los junto a nós e vê-los crescer. Filhos que, ao crescerem um pouco, já discutem connosco, acham que sabem bem mais que nós ( e às vezes sabem mesmo) e nós aprendemos com eles.
--Vale a pena viver estes assombrosos tempos modernos em que os milagres acontecem ao virar de um botão, em que se pode telefonar da terra para a lua, lançar sondas espaciais, máquinas pensantes, à fronteira de outros mundos. E descobrir que toda essa maravilha tecnológica não consegue, entretanto, atrasar ou adiantar a chegada da primavera.
- Vale a pena viver, mesmo com todas as limitações a que o ser humano está sujeito, quando lembramos que o surdo vê a luz do sol, que o cego ouve a música das coisas, que o mendigo sonha com as estrelas, que não precisamos de todos os sentidos para participar do esplendor da criação.
- Vale a pena mesmo sabendo que vocês verão coisas que eu nunca vi, assim como vejo coisas que meus pais não viram, e meus pais viram coisas que meus avós não viram.
- Vale a pena, certamente- o saber acumulado dos cientistas e especialistas que revelarão coisas que a mim não foram reveladas. Pode ser que vocês conheçam seres vindos de outros planetas, o que para mim é teoria e especulação, assim como a televisão e outras invenções foram teoria e especulação para meus avós já falecidos.
- Vale a pena, mesmo quando vocês descobrirem que tudo isso que estou mencionando é de pouca valia, porque a teoria não substitui a prática e cada um tem de aprender por si mesmo que o fogo queima, que o vinagre amarga, que o espinho fere e que o pessimismo não resolve rigorosamente nada.
- Vale a pena até mesmo envelhecer como eu e ter netos como vocês, que me devolveram a infância e a juventude.
- Vale a pena mesmo que eu parta e suas lembranças de mim se tornem vagas. Mas quando outros disserem coisas boas de seus avós, espero que vocês possam dizer de mim simplesmente isto:

"Minha avó foi aquela que me disse que valia a pena....E não é que ela tinha razão?"
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26/04/2005
texto recebido via Internet, s/autoria

publicado por LauraBM às 00:15
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E o video é exemplo disso!Bj
GOSTEI IMENSO. PARABÉNS
É só uma gracinha mas, na realidade, os idosos por...
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